Recursos Humanos


Pós-modernidade e mercado de trabalho.


- A Centralidade do Trabalho, Seu Aspecto Social e Sofrimento.

O mundo que vivemos hoje é muito diferente do mundo de nossos avós. Para eles internet, orkut, MSN, telefone celular, câmeras digitais e TV de plasma são invenções inimagináveis em se tratando de suas realidades de então.

Nossos avós são filhos do que se convencionou chamar de a Era Industrial. A Era Industrial, foi um período que despontou no início do século XX e se caracterizou por uma era de mecanização da produção e de uma severa e profunda reformulação na concepção do trabalho. Mudando, inclusive, a estrutura social e comercial da época. (Chiavenato, 2000; p. 30-31)1

Estas mudanças repercutiram, como não podia ser diferente, na ordem econômica, política e social da época.

Este fenômeno, o da mecanização da produção, foi tão profundo que, aos poucos, foi substituindo o operário pelas máquinas nas tarefas em que se podia automatizar e acelerar pela repetição.

A mecanização trouxe a redução dos preços e a popularização dos produtos criando com isto, o aumento dos mercados e o desejo pelo consumo.

Assim, grosso modo, a mecanização da produção trouxe a mecanização do trabalho. A mecanização do trabalho levou a sua divisão e a simplificação das operações; substituindo os ofícios tradicionais por tarefas semi-automatizadas e repetitivas, que podiam ser executadas por pessoas sem qualquer qualificação e com facilidade de controle por parte de uma supervisão. (Chiavenato, 2000; p. 32)

Deixando para trás a Era Industrial e dando um salto para os últimos 20/30 anos, do século passado, conseguimos perceber, como a pós-modernidade aponta para dias de significativas transformações onde a tecnologia e a economia globalizada, acentuaram o cenário de caos social e de fortalecimento do capitalismo, que de alguma forma se assemelha a sua irmã mais velha, a Era Industrial.

O que se inimaginava impossível, agora é um fato corriqueiro e não nos espanta mais. O movimento das economias fora de suas fronteiras políticas, muda o velho modo de produção, dá uma dinâmica diferente aos mercados determinando a mercantilização e a financeirização de todas as relações econômicas e sociais. Assim, dá-se o que não se supunha há alguns anos atrás: a soberania virtuosa do mercado e repele-se toda intervenção externa que possa afetá-la no curso espontâneo e autônomo dos agentes mercantis. (Gorender, 1997)

A fim de melhor explicar (ou tentar explicar) este momento singular na história do mundo, temos que aprofundar um pouco mais alguns temas importantes. Tais como: pós-modernidade (ou era pós-industrial) era do conhecimento e mercado de trabalho.

A Pós-Modernidade.

A Pós-Modernidade é um movimento de ruptura que surgiu nos fins do século XX, onde o conceito de progresso (da Era Industrial) vai sendo substituído pelo de crise e de incredulidade. Na verdade a era pós-moderna aponta-nos para o cibernético, o informático e o informacional, onde o saber científico está na informação transformada em conhecimento na forma organizada, estocada e preparada para a sua distribuição e, no limite, em termos de bits. (Barbosa, 1985; no prefácio do livro “A Condição Pós-Moderna”)

As características centrais da Era Industrial são as concentrações de um grande número de trabalhadores assalariados nas fábricas; o predomínio dos trabalhadores do setor secundário; a indústria contribuindo com a maioria da renda nacional; a aplicação das descobertas científicas nos processos científicos; a racionalização e a fragmentação do trabalho; a separação entre casa e trabalho e sistema familiar e sistema profissional; urbanização e escolarização das massas; redução das desigualdades sociais; reformas dos espaços em função da produção e do consumo dos produtos industriais; maior mobilidade; produção em massa e crescimento do consumismo; fé em um progresso irreversível e um bem-estar crescente; etc. (De Masi, 2000)

Já na era pós-moderna temas como razão, sujeito, totalidade, verdade e progresso são conceitos vazios e em crise. A pós-modernidade é a era do efêmero, do fragmentário, do caótico. Na verdade é uma era descontínua sempre enfatizando a possibilidade de lidar com a realidade através do pensamento racional.

A era pós-moderna é fruto (filha) da modernidade, a qual não realizou as promessas de progresso infinito (O Estado de Bem-Estar Social). Segundo Elias (1993 apud Brito e Ribeiro, 2003; p. 9) a modernidade não possuiu um princípio organizador, ela nasceu espontaneamente. Através da racionalização foram gerados controles diversos com o objetivo de transformar a convivência entre as pessoas, mediante a domesticação dos afetos, do emocional etc.

O que vai caracterizar a sociedade pós-moderna, em aspectos gerais, são: a passagem da produção de bens para uma economia de serviços; a preeminência da classe dos profissionais e dos técnicos; o caráter central do saber teórico, gerador de inovação; a gestão do desenvolvimento técnico e do controle normativo da tecnologia; a criação de uma nova tecnologia intelectual. (De Masi, 2000).

Era do conhecimento.

As mudanças no mundo ensejaram mudanças em muitos significados e nas formas de se gestar estes significados. Uma delas é o conhecimento. Por cento e cinqüenta anos (de 1750 a 1900), o capitalismo e a tecnologia conquistaram o mundo através dele. A novidade que se faz sentir, no que diz respeito ao conhecimento, é a velocidade que ele é hoje empregado. (Drucker, 1999: p. 5)

O conhecimento que sempre foi um bem privado passa a ser público. Assim, começa a ser aplicado a ferramentas, processos e produtos, criando a Revolução Industrial.

Depois dessa fase passa a ser aplicado ao trabalho, gerando altas taxas de produtividade e possibilitando o aparecimento do proletariado; e, após a Segunda Guerra Mundial, o conhecimento passa a ser aplicado ao próprio conhecimento. Assim, rapidamente ele passa a ser o principal fator de produção. (Drucker, 1999: p. 5)

Ainda segundo Drucker (1999: p.27-29), a mudança no significado do conhecimento transformou a sociedade e a economia. Ele (o conhecimento) passa a ser recurso-chave pessoal e econômico. Os tradicionais fatores de produção (terra, mão-de-obra e capital) tornaram-se secundários.

Assim, podemos afirmar que no passado, para você ser bem-sucedido bastava saber administrar corretamente os recursos naturais (matéria-prima) de forma correta. Hoje, na era pós-moderna onde o conhecimento passa a ser fator crítico de sucesso, esta equação passa a não ser mais uma verdade.

Ainda, devemos lembrar que em oposição ao trabalhador da Era Industrial que – ao operar uma máquina em uma linha de produção qualquer – fazia apenas o que lhe era mandado e, ainda, as máquinas decidiam o que seria feito e com seria feito; o trabalhador do conhecimento precisa da máquina com certeza, mas esta máquina não lhe diz o que fazer, nem quando fazer.

Mercado de Trabalho – Aspectos gerais e dinâmica social e estrutural.

Para que possamos entender melhor entender o mercado de trabalho da pós-modernidade, no Brasil, há que se voltar um pouco à década de 90 e lembrar que vivíamos numa situação de instabilidade econômica e forte espiral inflacionária. Por outro lado, com o controle da inflação por meio de uma política monetária de altas taxas de juros e controle do déficit fiscal restringindo o crescimento econômico, deu origem a um aumento significativo das taxas de desemprego, mormente nos grandes centros.

O fim da inflação trouxe uma estabilidade nos preços e uma melhor distribuição da renda. Porém, trouxe o aumento da informalidade.

Outro ponto interessante é que neste mesmo período saímos de uma economia fechada para uma economia aberta. Esta abertura teve impactos bastante significativos nas diversas indústrias. Em alguns casos houve a necessidade de severa reestruturação produtiva e organizacional, levando a uma perda do dinamismo da economia, bem como a diminuição sensível do número de postos de trabalho. (Charad, 2003: p. 3)

Por fim, estas transformações, fizeram surgir novas formas de ocupações e de contratos de trabalho, requerendo mudanças estruturais e institucionais, bem como se verifica uma heterogeneização do trabalho, expressa também pela entrada de um maior contingente feminino no mercado fabril (operário); surge a subproletarização (em função das novas formas de oferta de vagas no mercado de trabalho: trabalho parcial, temporário, precário, subcontratado, “terceirizado” etc.) (Antunes, 2006: p. 47)

Outra mudança que se deve mencionar é a entrada da inovação tecnológica implementada nas empresas brasileiras no fim do século passado. Estes fatos, como os anteriores, ajudam a pressionar o já combalido mercado de trabalho, forçando as empresas investir em capacitação e desenvolvimento, bem como empurrando os trabalhadores com baixa escolaridade para a exclusão do mercado de trabalho. Sendo estes substituídos por trabalhadores mais capacitados e com maior competência. (Charad, 2003: p. 3)

Todas estas mudanças provocaram mudanças nas relações de trabalho e de emprego, ensejaram a última alteração, que é a modificação do papel do Estado na sociedade. O Estado deixa de ser um dos maiores promotores de produção, agora está orientado para a fiscalização e a regulação da economia. (Charad, 2003: p. 3)

Conclusão.

Todas estas mudanças apontam-nos para um mundo imprevisível, irresistível e incompreensível, onde o trabalhador sofre e sofrerá estes impactos diretamente e, infelizmente, o Estado poderá fazer pouco ou quase nada por este trabalhador. (Sevcenko, 2001)

Segundo Engels (1876: p. 4) o trabalho é a condição básica e essencial de toda a vida humana. É, em tal grau e, em certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.

Ainda, Engels (1876: p. 22) afirma que o homem modifica a natureza e a obriga a servir-lhe; domina-a. E aí está, em última análise, à diferença essencial entre o homem e os demais animais; resulta do trabalho.

Corroborando com o pensamento de Engels vem Antunes (2006: p. 125-6) e classifica o trabalho como um momento fundante de realização do ser social. Condição para sua existência; é o ponto de partida para sua humanização. Assim, permite-nos entender que o trabalho é “a única lei objetiva e ultra universal do ser social, que é tão eterna quanto próprio ser social. ( Lukács, 1979; p.99 apud Antunes, 2006)

Por outro lado o trabalho, mormente, nas últimas décadas e, por conta dessas transformações citadas acima, ganha certo estranhamento. Este estranhamento vem de novos significados à medida que passa ficar depauperado, pervertido e passa a ser meio de subsistência, uma mercadoria etc. (Antunes, 2006: p. 126)

O que deveria ser a força humana de realização do indivíduo reduz-se a única possibilidade de subsistência do despossuído. O trabalho, segundo Marx (1844), no seio da sociedade capitalista, tornar-se precário e perverso. Em seu Manuscrito, Marx (1844 apud Antunes, 2006: p: 126), escreve: o trabalhador decai a uma mercadoria e á mais miserável mercadoria.

O estranhamento está (ou se encontra) na medida em que quanto mais o trabalhador produz, quanto menos ele tem para consumir. Ou, ainda, quanto mais rico de espírito o trabalho, tanto mais o trabalhador se torna pobre de espírito e servo da natureza. (Marx, 1844 apud Antunes, 2006: p: 126)

O estranhamento é resultante da forma do trabalho desrealizado, na sociedade capitalista. Ou melhor, o trabalho perde sua importância no imaginário humano, na medida em que o produto do trabalho é alheio a ele. O trabalho não mas o satisfaz, mas o desagrada. O trabalho não é mais voluntário e sim compulsório, forçado. Não é mais uma satisfação, mas uma necessidade. (Antunes, 2006; p. 127)

Deveremos, enquanto profissionais de RH e com o apoio das Ciências Sócias, repensar a questão do trabalho e as diversas relações oriundas dessa relação. O trabalho não pode ser visto como sofrimento, bem como não pode tornar o homem apêndice das máquinas. O trabalho ter que ser fonte de prazer e de satisfação. Não pode ser esvaziado, inútil e cansativo.

As organizações da pós-modernidade, a despeito do que pensaram Taylor e Fayol, têm que refletir novos significados para o trabalho e para a produção. O trabalhador não é uma extensão das máquinas, nem o trabalho pode ser fonte de sofrimento, alienação e insatisfação.

O trabalho tem que ser ressignificado e ganhar, como num passado recente, o status de valor e de dignidade humana.

  1. Para muitos autores a Era Industrial permeia, até os dias de hoje, muitas empresas do terceiro mundo.

Referência

  1. ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho: Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 11ª Edição. Editora Cortez, 2006.
  2. BRITO, Daniel e RIBEIRO, Tânia. A modernização na era das incertezas: Crise e desafios da teoria social. Ambient. Soc. V.5. n◦ 2 / V.6 n◦ 1. Campinas, 2003. Visitado em www.scielo.br/scielo/php. Acesso em agosto de 2006.
  3. CHAHAD, José Paulo Zeetano. Tendências recentes no mercado de trabalho: pesquisa de emprego e desemprego. SP em Perspectiva, 17 (3-4): 205-217. Visitado em www.scielo.br/scielo/php. Acesso em agosto de 2006.
  4. CHIAVENATO, Idalberto. Introdução á Teoria Geral da Administração. 6ª. Edição. Editora Campus. São Paulo, 2000.
  5. DE MASI, Domenico. A Sociedade Pós-Industrial. 3ª. Edição. Editora Senac, São Paulo, 2000.
  6. DRUCKER, Peter. Sociedade Pós-Capitalista. Editora Pioneira. São Paulo, 1999.
  7. ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem. Edição de Ridendo Castigat Mores, 1876. Edição Eletrônica: Ed. Ridendo Castigat Mores ( www.jahr.org) acesso em agosto de 2006.
  8. GORENDER, Jacob. Globalização, tecnologia e relações de trabalho. Estud. Av., São Paulo. V. 11, n. 29, 1997. Visitado no site www.scielo.br/scielo/php. Acesso em agosto de 2006.
  9. SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Angelo Peres - Consultor e Professor Universitário Angelo Peres é Sócio-Gerente da P&P Consultores Associados e professor universitário.
ppconsul@unisys.com.br